Dom Paulo Francisco Machado_Bispo Diocesano de Uberlandia
Terça-feira, 26 de Abril de 2011
“Fazei isto em memória de mim”.
Tais palavras de Jesus (1Cor 11,24-26; Lc 22,19; etc.) têm especial relevo. Trata-se de uma ordem de Jesus imediatamente obedecida pelos primeiros cristãos da Igreja Apostólica e que se relaciona com a Teologia da ceia pascal judaica.
Eucaristia / Memorial
“O paralelismo com a ceia pascal judaica permite entender o que significa memorial: não é a mera lembrança psicológica de um evento passado, mas um sermos re-apresentados, transportados com os pés da fé ao evento fundador que não se repete, mas do qual nos tornamos participantes, de certa maneira “contemporâneos”. O realismo do memorial permite que entendamos a unicidade do sacrifício de Cristo e o tipo de presença do Senhor Jesus no sacramento do altar”.
A Eucaristia não é a repetição da última ceia no Cenáculo. Esta, como fato histórico, é única e irrepetível. Tampouco é a repetição do sacrifício da cruz... Mas, pelo gesto simbólico instituído no Cenáculo (a ação de graças sobre o pão e o vinho como memorial de Cristo) a comunidade aqui reunida volta a ser apresentada ao evento irrepetível do Calvário e do túmulo vazio. “É para essa finalidade dinâmica de transportar-nos ao evento fundador que Cristo se faz presente verdadeira, real, substancialmente no pão e no vinho”.
In. F. Taborda, Da Celebração à Teologia, V, semana Teológica – Pastoral, Petrópolis 2003
O memorial (ZIKKARÓN) não é simples recordação de um fato, mas para os judeus é memorial da intervenção salvífica de Deus a favor de seu povo, uma intervenção que funda a história do povo de Deus.
A Celebração Eucarística, como memorial (ZIKKARÓN) da morte / ressurreição de Jesus é o nosso modo de ir ao calvário e ao sepulcro vazio. Na Celebração Eucarística, mediante os sinais do pão e do vinho, dá-se a nossa reapresentação ao evento fundador (Mistério Pascal).
“Fazei isto em memória de mim”. Esse é o mandato do Senhor, mas o que realmente Ele fez? - Jesus é judeu e anualmente Ele celebrava a Páscoa Judaica: “Desejei ardentemente celebrar...”. Jesus, mediante o rito do pão e do vinho, antecipou a sua total entrega ao Pai para a remissão dos pecados e, com a sua morte / ressurreição, dá início à nova e eterna aliança, selada em seu sangue, porque “sem efusão de sangue não há redenção” (Hb).
Esse memorial do mistério pascal exprime-se na aclamação após as palavras da instituição, na anáfora: “Eis o Mistério da Fé! Anunciamos, Senhor, a Vossa morte e proclamamos a Vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”.
Somos chamados a participar ativa, consciente, plena e frutuosamente no Mistério Pascal celebrado, tornando-nos com Cristo oferenda espiritual, agradável ao Pai e a serviço gratuito dos irmãos. Nesse sentido João contempla a Santa Ceia, na famosa cena do “Lavapés”.
Na Celebração Eucarística, contemplamos aquelas mesmas ações de Jesus na Última Ceia:
- Ele tomou o pão... tomou o cálice = preparação da mesa, apresentação dos oblatas (pão/vinho).
- Ele abençoou – (beracah) pão e vinho = oração eucarística – ação de graças.
- Ele partiu (o pão) = fração do pão.
- Ele deu... tomai e comei... tomai e bebei = comunhão
A - “Tomou o pão” – preparação das oferendas
Na Liturgia Eucarística primeiramente preparamos o altar (Cristo é nosso altar) e apresentamos (apresentação) as oferendas.
“Bendito sejais, Senhor, Deus do Universo pelo pão que recebemos de Vossa bondade, fruto da terra e do trabalho do homem e que agora Vos apresentamos e para nós se vai tornar o Pão da Vida”.
Eis uma oração de herança judaica. Com três ou mais comensais, os judeus deviam bendizer a Deus que nutre generosamente os seres humanos. Numa refeição, o dono da casa toma o alimento e pronuncia a bênção (N.S.C. – “Num só corpo”, p.147).
A Santa Ceia, descrita no N.T., inspira as anáforas (orações, preces eucarísticas):
- a atenção às mãos – no Cânon romano dois qualificativos: “Santas e Veneráveis mãos”; na anáfora armênia de Atanásio de Alexandria, são cinco qualificativos: “santas, divinas, imortais, imaculadas, criadoras”. Indicam: pureza ritual e santidade divina.
- olhar ao céu – inspira, sobretudo, as anáforas gregas, recorda os relatos da multiplicação dos pães ( Lc 9,16; Mc 6,41...)
Espiritualidade – Pão e Vinho frutos da terra (dom de Deus) e do trabalho do homem são trazidos e colocados sobre o altar (apresentados ao altar). Trazer para Cristo (o altar) tudo o que temos e somos: alegrias e dores, conquistas e fracassos, riqueza e pobreza, fraqueza e força.
Tomamos o pão e o vinho para “bendizer” (dizer bem). Bendizer não é traçar o sinal da cruz sobre o alimento, mas dizemos uma palavra de louvor a Deus, de reconhecimento de que os dons sobre o altar, a Ele pertencem.
O pão é fruto do campo semeado, mas foi o Senhor que tornou fecunda a Terra (Mc 4, 27-28 – “o grão brotou e cresceu e, sem que soubéssemos como, a terra deu fruto por si mesma...). Pão é dádiva divina mais esforço humano. A missa é colaboração do homem e de Deus e, então, a Eucaristia é a divinização do trabalho humano.
Nós apresentamos o pão, produto da terra. Dos trigais Deus nos dá o Pão Vivo, descido do céu para que tenhamos a Vida (“Zoé”) eterna.
Que sentimentos perpassam o nosso coração:
- Solidariedade para os que não têm pão (famintos)
- Gratidão
- Disponibilidade – fazer de nossa vida dom
- Generosidade – coleta
- Alegria – “há mais alegria em dar do que em receber” (lógion de Jesus).
“Não sinto prazer pela comida corruptível nem pelos deleites desta vida. Quero o Pão de Deus, que é a Carne de Jesus Cristo” – Santo Inácio de Antioquia
B – Pronunciou a bênção (berâkâh) “Deu graças”
É essencial, na piedade judaica, individualmente ou comunitariamente, dar graças. O pão é fruto que provem da terra; o vinho é fruto que provem da planta.
Os rabinos, sábios judeus, conforme se lê no Talmude Babilonense, afirmavam que era proibido provar qualquer coisa antes de se pronunciar a bênção; um deles (rabi Haniná Bar- Pappá) dizia: “Quem goza deste mundo sem a bênção é como se roubasse ao Santo – bendito seja Ele!”. Os judeus viam a bênção como um dever de retribuição para com Deus, é reconhecimento da bondade, generosidade divinas.
A oração eucarística é a longa ação de graças que toda a assembléia acompanha piedosamente para dar seu assentimento: “AMÉM”. Para isso será preciso ter o coração nas coisas de Deus: “corações ao Alto”. Sabemos que Cristo Ressuscitado está no meio de nós, temos o coração voltado para Deus e damos graças ao Senhor, nosso Deus. É toda comunidade, Assembleia Santa (Igreja) que, animada pelo Espírito Santo, dá graças ao Pai.
Nossa vocação fundamental é dar graças, daí Maria Santíssima é modelo para todo cristão quando reconhece em si, e na história de seu povo a presença atuante e benéfica do Pai Celeste.
A vida nossa é dom é graça: “É nossa salvação dai-Vos graças”. É nossa salvação fazer de nossa vida um dom ao Pai e aos irmãos, como fez Jesus pelo Mistério Pascal (Morte / Ressurreição).
O agradecer é fonte de bênção.
A anáfora faz-nos lembrar juntos (comunidade /assembléia) as maravilhas que o Pai fez, por meio do Seu Filho, na força do amor paterno/ filial. Reconhecendo esse amor de Deus, suplicamos que o Pai envie seu Espírito para que transubstancie o pão e o vinho no corpo e sangue de Cristo, e, nos transforme no corpo eclesial do Ressuscitado.
A espiritualidade judaica inspira a espiritualidade cristã: bendizer, dar graças (berâkâh/eucharistein) e depois comer. Conforme a 1 Cor 10, 16-18: comemos o Pão e bebemos o cálice da Bênção, da ação de graças.
Sentimentos suscitados: alegria, gratidão.
A oração, prece eucarística, anáfora é mais que uma oração é uma Ação Litúrgica, que tem início num diálogo (Cf. Santo Agostinho, in Diego Jaramillo “Palavra e Pão”, p. 106). O núcleo central dela é a ação de graças dirigida em adoração ao Pai, cuja síntese se encontra na Doxologia Final (Santo Agostinho – o Amém de Hipona; São Jerônimo – o Amém de Roma).
Somos chamados a “ser eucarísticos”: dar graças, reconhecimento dos dons de Deus, fazer de nossa vida dom para Deus e para os irmãos.
“O culto a Deus consiste, principalmente, em que a alma não seja ingrata”. Santo Agostinho.
C - “Partiu e lhes deu”
Numa solene refeição judaica, era ao chefe da casa que competia partir o pão. Era direito absoluto dele, era seu direito / dever.
Quando tomamos os Evangelhos Sinóticos e a 1 Cor percebemos que Jesus não delegou a ninguém essa função de pronunciar a bênção e partir o pão. Ele preside pessoalmente a ceia, como pai de uma família.
Nos Evangelhos, quando Jesus multiplica os pães Ele: ergue os olhos para os céus, bendiz ao Senhor e parte o pão (Mt 14, 19; Lc 9,16; Mc 4, 41). O mesmo ocorre na Santa Ceia: Mt 26, 26; Mc 14, 22; Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24 e, após a sua ressurreição em Emaús (Lc 22, 30). No 4º Evangelho é o próprio Cristo que reparte o pão entre os seus discípulos (Jo 6, 11; 21,13).
Partir e Partilhar (partir e dar; partir para distribuir) – Daí o primeiro nome da Missa: Fração do Pão (At 2, 42-46; 20,7.11;27,35; 1 Cor 10,16).
No judaísmo, conforme já dissemos cabe ao Pai, ao chefe de família trazer o alimento, fruto de seu suor, para a esposa, filhos e amigos. Todos se alimentam com o mesmo pão, são chamados com – pan-heiros. Parte-se o pão para a partilha, significando mais profundamente a unidade da família.
Partir o pão é um gesto profético, em anúncio do plano de Deus. O único pão é partido e partilhado entre todos, expressando-se assim que “somos um só corpo, que é o corpo do Senhor, a sua Igreja”. Comer, mastigar o corpo do Senhor, “Pão Partido” é compromisso de partilha do pão para com os necessitados, de vida entregue para edificar a civilização do Amor.
Jesus partiu o pão e o deu a seus discípulos dizendo: “Tomem e comam; ... tomem e bebam”. Parte-se o pão para ser comido; toma-se o vinho para ser saboreado.
A ceia pascal judaica tinha como momento culminante o comer do cordeiro pascal. Esse rito só ocorria após a saciedade dos comensais para que o sabor do Cordeiro Pascal permanecesse na boca. Depois, nada de sólido se comia. Havia uma prescrição judaica: “Não se come a páscoa para saciar-se”.
Na nossa ceia pascal somos convidados (“Felizes os convidados para a ceia...”) para comer o corpo doado e o sangue derramado do Cordeiro imolado para a vida (“redenção” – “sem efusão de sangue não há redenção”) do mundo.
Quando comemos o pão o alimento se transforma em nosso corpo, quando comemos o Corpo de Cristo Ele nos transforma em seu corpo, porque recebemos a força renovadora de seu Espírito, que nos dispõe a continuar a sua missão no mundo com alegria.
“Quem preside deve dar a comunhão”.
“Cristo não deve alojar-se em teu estômago e sim no teu espírito” – Hugo de São Victor.
“Vinde beber, sorvei a chama que vos converterá em anjos de fogo e provai o sabor do Espírito para que vossos nomes sejam escritos no céu” – Isaac de Antioquia.
“Ponde todo afinco em usar uma só Eucaristia porque uma só é a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice para unirmo-nos com seu sangue; um só Altar, assim como não há mais que um só Bispo com o colégio de presbitérios e diáconos”. Santo Inácio de Antioquia.


